The Outcasts: o original punk melódico do Ulster

outcasts poster

The Outcasts  foi formado em 1977 pelos irmãos Greg (baixo e voz), Martin (guitarra) e Colin (bateria) Cowan, aos quais se juntou o guitarrista Colin “Getty” Getgood. Bem no comecinho, o vocalista era Blair Hamilton, mas este logo deixou o grupo, muito provavelmente por não acreditar que aquilo pudesse dar certo.

Desde as primeiras apresentações o Outcasts ganhou fama de gerar confusão, tanto que o nome deriva deste fato, pois teriam sido expulsos de vários clubes nas primeira tentativas de tocar ao vivo. Isso tem a ver também com serem todos moradores da violenta periferia de Belfast e, em consequência, também não muito pacíficos.

outcasts firstEm uma entrevista ao fanzine Ralf Real Shock, em 2004, Greg afirmou que “no início, quando tocávamos em clubes pequenos, era nós contra o público. Se alguém viesse pra cima, logo Colin e Martin podiam revidar com as guitarras. Mas depois fomos conquistando nosso próprio público que nos defendia se estourasse alguma confusão”. Só por aí dá pra sentir como era o clima nos “gigs” de Belfast na época.

Mesmo assim, aos poucos, eles foram fazendo fama e, depois de gravarem uma demo tape, fecharam com a IT Records (selo independente já extinto, com sede na cidade vizinha de Portadown) para lançar o primeiro single. O resultado é uma gema rara do punk rock com três faixas: You’re a disease, Don’t want to be no adult e Frustration. Primitivo e básico.

outcasts-liveA gravação de You’re a disease foi registrada e incluída no documentário Shellshock Rock (John T. Davies), registro histórico da cena punk de Belfast entre 1977 e 78. Para os dias atuais, o single (e todos os primeiros trabalhos deles) pode até soar um pouco lento e, principalmente, limitado tecnicamente. No entanto, é impossível não notar que ali destilava-se a fúria adolescente e uma certa angústia de viver em um dos lugares mais perigosos do mundo.

O fato é que uma cópia do compacto foi parar nas mãos do DJ John Peel (RIP), da BBC de Londres, que colocou Frustration várias vezes no ar. Isso deu uma força enorme pros caras que construíram uma base de seguidores (os tais que os defendiam caso rolasse tretas nos shows). Não demorou assinaram com a então nascente Good Vibrations Records.

oucasts 1980O trabalho de estreia na casa nova foi o single Justa nother teenage rebel / Love is for sops, que foi muito bem e ganhou até uma segunda prensagem poucas semanas depois de lançado. Na sequência, aumentaram ainda mais a fama de bad boys com a faixa Cops are comin’, incluída em um single duplo (dois compactos de 7″) chamado Battle of bands que tinha ainda faixas dos grupos Rudi, Idiots e Spider. Ao vivo, sempre que entoavam  o refrão “Better start runnin’ cuz the cops are comin”, o pogo rolava solto e, não raro, a pancadaria também.

O primeiro  LP seria lançado apenas em 1979, sob o título Self conscious over you. O disco inclui algumas surpresas como teclados e saxofone em algumas faixas, entretanto, nada comercial (pelo menos para a época, já que hoje, o punk se tornou comercial).

Outra coisa que ficou clara no LP, era a limitação de Colin como batera. Só mesmo o fato de ele ser o verdadeiro fundador do grupo o mantinha na função. E também a qualidade da gravação (mais exatamente a mixagem) deixou muito a desejar.

Infelizmente isso parecia ser o karma do Outcasts, já que o próprio Greg Cowan reconheceria na citada entrevista que eles jamais conseguiram gravar algo realmente com boa qualidade técnica, mesmo nos álbuns subsequentes, quando tinham mais grana e experiência.

outcasts selfMas se em Self conscious… falta produção, sobra coração. E o punk tem essa característica de superar a limitação técnica através sentimento, especialmente pela raiva ou pela angústia. Por isso, Self conscious… ganha o ouvinte aos poucos.

Na sequência, ainda em 1979, gravaram mais uma faixa (Cyborg) para uma coletânea em single, chamada Room to move, que tinha também sons do Shock Treatment, The Vipers e Big Self.

No ano seguinte, Greg sofreu um acidente de moto e ficou impossibilitado de tocar baixo por um bom tempo. Assim, tornou-se apenas vocalista e Gord Blair (ex-Rudi) assumiu o instrumento nos shows.

Outra mudança foi a entrada de um segundo batera, para segurar mais o som, já que Colin realmente não conseguia evoluir musicalmente como os demais integrantes. Então, com essa formação gravaram o ótimo single Magnum Force / Gangland Warfare, no qual dá para sentir uma grande mudança no estilo. E a capa desse disco tem algo macabro. Eles tiraram a foto em um cemitério. No clique, Colin Cowan aparece abaixo da inscrição “Sacred to the memory of”. Não muito tempo depois de o disco ser lançado, o cara morreu em um acidente de carro. Macabro.

Mas antes dessa tragédia, eles fundaram seu próprio selo, a GBH Records. Em meados de 1981, lançaram o primeiro trampo pelo selo, um EP com as faixas Programme Love, Beating and screaming pt. 1 and 2 e Mania), que representou uma grande evolução. Na sequência, lançariam o single Angel Face / Gangland Warfare, o último trabalho de Colin Cowan antes de morrer. O baterista nem chegou a ver como ficou o disco.

Outcasts2O golpe foi duro, afinal Greg e Martin eram irmãos dele e a ideia de começar a banda, bem como o nome do grupo, haviam saído de sua cabeça. “Quando eu penso no Outcasts, sempre lembro da morte do Colin. Ele era um baterista terrível, mas era nosso líder e o coração da banda. Apesar de termos alcançado mais sucesso depois que ele foi morto, muito da graça morreu com ele”, afirmou Greg na entrevista de 2004.

Depois da morte de Greg, o Outcasts conseguiu relativo sucesso. A primeira gravação sem o baterista (a função ficou apenas para Ray Falls) foi o álbum Blood and Thunder, o segundo da banda, lançado em novembro de 1982. O disco ficou por oito semanas entre os mais vendidos no Reino Unido, chegando a alcançar a vigésima posição.

De fato, é um grande disco. Não tão punk e nem com o mesmo “sentimento de rebeldia” do primeiro, mas um belo trabalho instrumental. É possível sentir um clima mais “dark” no som e alguma pitada de psicodelia em faixas como Beating & Screaming ou The Winter.

outcasts sevenNo ano seguinte, eles acentuaram a pegada psicodélica, usando sintetizadores, efeitos e bateria eletrônica (não confundir com batida eletrônica pré-programada) no EP Nowhere left to run, com três faixas. Na minha opinião este disco representa o auge musical deles, já distante do punk rústico dos primeiros dias, mas sem cair no comercialismo barato. É desse EP a faixa Ruby, com seu estilo meio rockabilly, meio punk 77, uma das minhas preferidas de todos os tempos.

Nessa época, o Outcasts passou a ser considerado uma banda grande, fazendo shows em espaços cada vez mais amplos e com bom desempenho em termos de vendas para uma banda independente. No início de 1984, lançaram um mini LP, Seven deadly sins. A faixa título e Swamp Fever, são dois ótimos rockabillies. Five Years podia ser uma música de David Bowie nos anos 70 e Waiting for the rain foi produzida para ser um hit, mas não pegou e ainda decepcionou boa parte do público da banda.

No ano seguinte, lançaram o que seria o último registro em vinil do grupo: um single com uma versão matadora de 1969 (Stooges) e Psychotic Shakedown, que como sugere o nome trata-se de um psychobilly. Mas já sem qualquer tesão em continuar sendo o The Outcasts, resolveram dar um fim à banda.

Conheça melhor o som do The Outcasts:

Self Conscious Over You (LP + dois primeiros singles)
Blood and Thunder (LP)
Seven Deadly Sins (mini LP)
Punk Singles (coletânea com todos os singles, part 1)
Punk Singles (coletânea com todos os singles, part 2)

Curiosidades

  • Em 2010, o grupo foi reformado com Greg e Martin Cowan, Raymond Falls e Petesy Burns. Em 2015, após o sucesso de um filme sobre Terri Hooler, o fundador da Good Vibrations e “pai” do punk na Irlanda do Norte, houve um aumento do interesse pelo Outcasts em vários países europeus. Com isso, fizeram uma tour que durou cerca de seis meses. E seguem na estrada mandando ver, mesmo com seus integrantes na faixa dos 60 e poucos anos. No entanto, não gravaram mais nada de novo.
  • Em setembro de 2016, Colin Getgood faleceu após uma longa batalha contra o câncer.
  • Ainda no ano passado (2016), foi lançado o documentário Outcasts By Choice, com direção de Paul and Kate McCarroll (pai e filha). O trabalho mostra filmagens dos velhos tempos, bem como depoimentos e trechos de apresentações do retorno da banda.

thoutcasts

Anúncios

Sua opinião é importante

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s