O som dos subúrbios com o The Members

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Quando resolvi criar este blog, o primeiro nome que me veio à mente foi “Sounds of the Suburbs”, referência a uma música do The Members e à essência do punk rock. No fim, optei por Factor Zero por motivos já explicados.

Muito comparados ao Clash (com razão) e ao The Ruts (nem tanto), o Members é uma autêntica banda dos subúrbios londrinos, o que explica, em parte, a forte influência do reggae no som deles. A associação punk-reggae foi um fenômeno quase exclusivamente de Londres, já que foi daquelas quebradas que saiu a horda de desempregados responsável pela explosão punk de 76 e o som que predominava por lá antes do punk era o “pub rock” e o reggae (o que não falta na periferia londrina é jamaicano e afins). Outra característica marcante da banda eram as letras com temas mais ligados ao cotidiano e à tiração de sarro do que à política.

O Members nasceu em Camberley, uma espéce de cidade satélite de Londres, em 1976, com Nicky Tesco (vocal) e Jean-Marie Carroll, a.k.a. JC (guitarra). Nos primeiros meses a formação sofreu muitas mudanças até se estabilizar com a dupla mais o baixista Nigel Bennett, o guitarrista Chris Payne e o baterista Adrian Lillywhite (irmão de Steve, o famoso produtor musical).

A primeira aparição em vinil foi na coletânea Streets, com a faixa Fear in the Streets, um manifesto contra os cabeças ocas nazistas do National Front (a palhaçada é antiga). A música também foi o único registro da formação original, com o guitarrista Gary Baker, e uma das primeiras produções de Steve Lillywhite.

Meses depois, lançaram um compacto pela Stiff Records, com Solitary Confinement e Rat Up a Drain Pipe. A primeira, um clássico; a segunda, um reggae (ou ska, como queiram). Solitary… é uma letra autobiográfica de Nick, sobre um cara que sai dos subúrbios e vai para Londres, onde se perde na solidão da metrópole. A mesma história de muita gente, o que ajudou a banda a conseguir a simpatia da molecada. Na época, poucas bandas cantavam sobre pequenos dramas pessoais ou problemas comuns do dia a dia.

A aproximação com o reggae e uma pegada mais melódica, com uso de metais, era outro diferencial do Members, o que também afastava o público mais radical. O flerte de Nick com o ritmo jamaicano começou por volta de 72/73, quando era estudante em Liverpool. É bom lembrar que o “movimento” Two Tone surgiria apenas alguns anos depois e não dá para negar que o Members ajudou a pavimentar o caminho para o fenômeno, que teve expoentes como The Specials, Madness, The Beat e outros tantos.

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No final de 78 o Members era uma das mais famosas bandas punks do Reino Unido e a Virgin Records não perdeu tempo para contratá-los. O primeiro lançamento pela nova gravadora foi o compacto The Sound of the Suburbs, um clássico tanto em termos de som como letra.

Same old boring sunday morning
Old dad’s out washing the car
Mum’s in the kitchen cook sunday dinner
Her best meal, moaning while it lasts
And Johnny is upstairs in his bedroom sitting in the dark
Annoying the neighbors with his punk rock electric guitar

This is the sound of the suburbs

Every lousy monday morning
Heathrow jets go crashing over our home
Ten o’clock, broadmoor siren driving me mad
Won’t leave me alone
The woman next door just sits inside and cries
She hasn’t come out once ever since her husband died

Youth Club Groups used to wanna be free
Now they want Anarchy
They play too fast, they play out of tune
Practice in the singers bedroom
Drums quite good, the bass is too loud
And I can’t hear the words

This is the sound of the suburbs

Saturday morning family shoppers
Crowding out the center of town
Young blokes sitting on the benches
Shouting at the young girls walking around
And Johnny just stands there
In his window looking at the night
Says “Hey, what you listening to? There’s nothing there!”
That’s right

Uma perfeita descrição do dia a dia dos subúrbios, com um acorde “clashniano”, mas totalmente original. No lado B, a instrumental Handling the Big Jets acabou apenas preenchendo espaço, mas a bolachinha vendeu, na época, cerca de 250 mil cópias, algo bem incomum para uma banda punk. Isso ajudou – e muito – para que tivessem todo apoio em termos de produção para gravarem o primeiro LP.

Ganharam o tempo que precisassem no estúdio e ainda contaram com a produção de Steve Lillywhite, que já começava a ganhar experiência e fama (na época, trabalhava com o Siouxsie and the Banshees). O resultado foi o excelente At Chelsea Night Club (apesar do título, não é ao vivo), um disco indispensável em qualquer coleção que pretenda cobrir a melhor época do punk rock (76-82).

members suburbsMarca registrada do grupo, o LP começa com um instrumental (nos shows também faziam isso). A segunda faixa, Sally, já mostra a energia e criatividade do Members, ao mesclar acordes básicos com partes de reggae (algo que se tornaria muito comum nos anos 90, em grupos da linha do Sublime).

A terceira faixa – uma de minhas favoritas – é Soho a Go-Go, que começa lenta e depois vai ganhando corpo em um acorde melódico, porém, pesado. Don’t Push poderia ter sido incluída pelo Clash em London Calling que ninguém notaria que não era uma música deles. Na sequência, para fechar o lado A do LP (em CD isso não existe!) vem uma versão mais bem produzida de Solitary Confinement.

O lado B abre com com o empolgante “punkabilly” Frustated Bagshot e segue com Stand Up and Spit, um reggae de refrão instigante antes de uma outra regravação, desta vez, The Sound of The Suburbs. Depois, a satírica Phone in Show, mais um roquinho sacana sobre masturbação, precede a faixa mais comercial do disco, Love in a Lift, outro reggae com quase cinco minutos de duração e que termina com guitarras pesadas em alta velocidade.

A última faixa, Chelsea Night Club, é a mais punk de todas, com acorde simples e vocais agressivos. Para muita gente, o maior clássico deles. Enfim, é um disco para muitos gostos, que os mais radicais podem considerar “comercial”, mas é apenas rock’n’roll (ou punk rock) com molho reggae (ou ska).

At Chelsea… foi bem recebido por público e crítica e colocou o Members no patamar de bandas grandes, além de tornar o grupo idolatrado entre a molecada suburbana.

Depois desse lançamento, o grupo manteve o ritmo de trabalho com uma média de quatro shows por semana e, nem bem colheram todos os frutos do disco, estavam em estúdio mais uma vez para conceber o single Offshore Bank Business. A música que dá título à bolachinha é um reggae que fala sobre as falcatruas financeiras de grandes empresas em paraísos fiscais. Em 1979!members fly

Uma letra que caberia perfeitamente nos dias atuais, marcados por sucessivas “crises” econômicas, evidentemente geradas pela ganância especulativa do mercado financeiro. Além disso, o compacto saiu um ano antes da explosão Two Tone. Nem precisa falar mais, né?

E, para mostrar que ainda tinham o punk na veia, no início de 1980 colocaram nas lojas outro single, com Killing Time e GLC, faixas em um estilo próximo ao Oi. Os dois compactos prenunciavam o que viria no segundo LP: mais versatilidade.

The Choice is Yours foi o título escolhido para o disco, na prática, uma continuação do primeiro. No entanto, a produção, desta vez a cargo de Rupert Hine, tendo em vista que Steve já não estava mais tão disponível (nem para a banda do irmão!), não conseguiu manter a qualidade.

Não que seja ruim, mas Rupert não conhecia o Members, nem o punk, nem o reggae, era apenas um produtor pop da área de “fabricação de hits” da Virgin. Apenas após o disco lançado é que ele foi assistir um show da banda. Pecado mortal.

Mas é um bom disco no final das contas. Aliás, muito bom. Há momentos puramente pop, como Romance e flertes com o som “new wave”, como em Phisycal Love. Mas a banda ainda era o The Members e a energia punk se faz presente em Goodbye to the Job, Flying Again e Muzak Machine. Destacam-se ainda Police Car, Gang War e Brian Was, tanto pelas letras como pelo som um pouco mais lento, porém, com o espírito punk setentista.

O reggae, já com uma tendência mais para o ska, aparece na instrumental The Ayatollah Harmony que abre o disco e também em Clean Men. Em resumo, o Members mantinha-se à frente de seu tempo e, óbvio, pouco compreendidos na época. Estranhamente, The Choice is Yours teve melhor repercussão nos EUA do que na Inglaterra.

Como não conseguissem vendas estupendas, o descontentamento da Virgin não demorou a se manifestar. E da banda também. Assim, o contrato com a major foi rompido. Em consequência, eles voltariam ao estúdio apenas na segunda metade de 1981, pelo selo Genetic, de Mike Rushent (Human League) amigo do empresário da banda, Ian Grant, ligado à Arista e à IRS.

A partir daí, o Members assumiu uma posição claramente comercial, abandonou de vez o “som do subúrbio” e passou a fazer o som das pistas de dança, com um estilo disco, funk, soul, etc. Em 1983, lançaram o terceiro LP, Uprhythm Downbeat, um disco decepcionante, que sepultou o passado glorioso da banda.

O LP saiu apenas nos EUA, aliás, nessa época o grupo praticamente mudou-se para a terra do Tio Sam em clara tentativa de fazer sucesso por lá com o “novo” som. Não funcionou e a história acabou ainda em 83, após mais uma das muitas tours que fizeram pela América do Norte.

Baixe aqui At Chelsea Night Club
Aqui The Choice is Yours
E aqui, todos os singles, que nunca foram lançados em um só disco

Curiosidades

  • Durante um bom tempo o Members existiu apenas na cabeça de Nick Tesco, que para impressionar garotas e enturmar-se falava para todo mundo que tinha uma banda, mas não tinha! Até que um tal de Mike Kingsley (empresário e proprietário de um estúdio) o viu usando uma máquina de escrever em uma festa e perguntou o que fazia. A resposta: “estou escrevendo uma canção”. Então o cara concluiu que ele tinha uma banda e disse que gostaria de ouvir o som… Nick não negou e em uma semana arrumou alguns músicos e fez três ou quatro sons (um deles, GLC, faixa que seria lançada em compacto alguns anos depois).
  • As primeiras cópias de The Choice is Yours saíram com uma gravata do Members (um símbolo da banda) de brinde.
  • Uprhythm Downbeat foi lançado com alguns anos de atraso na Inglaterra, com o título Go West, pela Albion Records, sem autorização da banda.
  • Após o fim do Members, JC Carroll formou o JC Mainmen e mais tarde o JC and the Disciples, ainda em atividade. Em 1985, participou como acordeonista no LP Que Sera Sera, de Johnny Thunders (o disco tem ainda participações de Steve Bators, Perry Nolan, Steve Jones e Paul Cook, entre outros).
  • Nick Tesco, por sua vez, ainda nos anos 80, lançou um single com o rapper nova iorquino J. Walter Negro e depois trabalhou como ator com o diretor finlandês Aki Kaurismäki na série de filmes que criou o grupo fictício Leningrad Cowboys (que depois, tornou-se uma banda de verdade).
  • Em 2006, o Members reuniu-se para comemorar o aniversário de JC Carroll e desde então se apresenta esporadicamente. Nick Tesco não faz parte do Members ressuscitado, que tem Nick, Chris e Nigel (que também toca com o reformado Vibrators) da formação original.

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